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política e sociedade

Os mongóis e o medo de perder a língua

September 15, 2020

Os mongóis e o medo de perder a língua

A Mongólia Interior vive uma rara onda de protestos após a introdução do ensino bilingue que promove o mandarim. Académicos e activistas políticos temem que este seja o primeiro passo para o fim do ensino na língua mongol e um ataque à cultura e identidade da minoria étnica.

“Na Primavera tivemos medo de morrer da Covid-19, agora veio o Outono e temos medo de nos tornarmos extintos”, disse um cidadão chinês, da etnia mongol, citado por Gegentuul Baioud, investigadora de antropologia linguística na Universidade Macquarie, na Austrália.
Este medo começou no final de Junho, quando as autoridades regionais anunciaram mudanças no modelo de ensino que tem vigorado na Mongólia Interior nos últimos 73 anos, segundo o qual todas as aulas são leccionadas em mongol, com a excepção de uma disciplina de língua e literatura chinesa a partir do terceiro ano. Esta disciplina passa agora a constar do programa logo no primeiro ano de escolaridade. Em 2021, as aulas de educação política e moral passam a ser ensinadas em mandarim, o mesmo acontecendo com a disciplina de história em 2022.
A transição de um ensino em língua mongol para um ensino bilingue gerou 4.200 petições contra em apenas dois dias, uma série de protestos nas ruas de toda a região e levou milhares de estudantes a fazerem greves às aulas, que deveriam ter recomeçado a 1 de Setembro.
O caso teve mesmo eco do outro lado da fronteira, na Mongólia, onde dezenas de pessoas protestaram junto à Embaixada chinesa na capital mongol, Ulan Bator. Os manifestantes lembraram que a região chinesa é o último reduto da escrita tradicional mongol vertical, após a Mongólia ter nos anos 40 adoptado o alfabeto cirílico devido à influência da União Soviética.
Aliás, a pandemia da Covid-19, que levou ao encerramento da região, removeu um dos obstáculos que poderia ter levado o Partido Comunista Chinês a hesitar: “as relações sociais cada vez mais próximas entre a Mongólia independente e a Mongólia Interior”, escreveu Christopher Atwood, professor de história mongol da Universidade da Pensilvânia.
Em reacção aos protestos, o regime de Pequim prometeu que não haveria mais alterações – num slogan conhecido como “Cinco Que Não Mudam” –, nomeadamente que as disciplinas de matemática, ciências, arte, música e educação física continuarão a ser ensinadas em mongol.
No entanto, ao decidir que a língua “não é já capaz de servir de meio para disciplinas vitais como história, educação política e moral,” escreveu Christopher Atwood, a mensagem vinda de Pequim é “clara: o mongol é primitivo e não pode ser desenvolvido”.
A medida vai empurrar o mongol para o estatuto de “língua doméstica que só pode ser usada em conversas familiares e à qual falta o vocabulário e sofisticação retórica para utilização em público”, lamenta o académico.

“Mentir de forma descarada”

Christopher avisa ainda que a garantia “Cinco Que Não Mudam” confirma publicamente o empenho de Pequim na nova política. Ou seja, continua o professor, o regime comunista fica sem margem para um eventual recuo que utilize as autoridades regionais como bode expiatório – a saída encontrada em anteriores tentativas de limitar a educação em língua mongol, derrotadas pela mobilização de quadros locais do Partido.
Enghebatu Togochog prefere desvalorizar esta garantia. Os dirigentes comunistas “estão a mentir de forma descarada” e irão avançar de forma “pronta e acelerada” para o ensino apenas em mandarim, disse o activista político ao EXTRAMUROS. “Não sei quanto tempo vai demorar, talvez alguns anos”, prevê o director do Southern Mongolian Human Rights Information Centre, com sede em Nova Iorque.
O decreto defende que é necessário garantir que todos os cidadãos chineses falem mandarim, para dar às minorias étnicas condições para ter mais sucesso no mercado de trabalho. Muitas empresas da Mongólia Interior lideradas por chineses da etnia ‘han’ preferem não contratar trabalhadores que estudaram em escolas mongóis, diz Christopher Atwood, e por isso mais de 60 por cento dos pais mongóis já preferem inscrever os filhos em escolas chinesas.
Gegentuul Baioud teme que a nova política possa, no entanto, ter o efeito contrário. Até agora os estudantes mongóis podiam fazer o ‘gaokao‘, o exame único de acesso ao ensino superior, na língua mongol, algo que tem promovido a entrada de jovens mongóis nas melhores universidades chinesas.
Mas a imprensa chinesa admite que este tratamento preferencial concedido às minorias étnicas pode ser abolido no futuro por ser “controverso”. Ou seja, os estudantes mongóis teriam de passar a fazer o exame em mandarim, competindo directamente com jovens que têm o mandarim como língua materna.
“A primeira reacção é pensar: Mas como é que alguém pode estar contra uma educação bilingue?” admite Enghebatu Togochog. Mas o activista não tem dúvidas que as mudanças são “um passo em direcção à criação de uma sociedade chinesa homogénea onde não há problemas étnicos ou medos sobre identidades nacionais diversas ou separatismos”.

Petição contra a nova política educativa bilingue

Ansiedade linguística

Os protestos reflectem uma crescente “ansiedade linguística” dos mongóis quanto ao futuro da sua cultura e identidade, numa altura em que já só representam cerca de 16 por cento dos 25 milhões de habitantes da Mongólia Interior, escreveu Uradyn Bulag, professor da Universidade de Cambridge.
Esta é uma ansiedade mais notória entre as novas gerações que, por exemplo, já tinha anteriormente levado ao surgimento de campanhas nas redes sociais contra a utilização de palavras em mandarim em conversas do dia-a-dia. Afinal, durante a guerra civil contra os Nacionalistas do Kuomintang, o Partido Comunista garantiu o apoio generalizado dos mongóis precisamente por apoiar publicamente as aspirações da etnia para a preservação da sua cultura, lembra Christopher Atwood. Uma questão histórica que explica em parte por que os mongóis, juntamente com a etnia coreana que se concentra na região junto à fronteira com a Península da Coreia, são por vezes mencionados como uma etnia-modelo, em contraste com os rebeldes tibetanos e uigures. E é precisamente a repressão imposta a estes grupos que mais assusta os mongóis, diz Enghebatu Togochog. Afinal, na região natal dos uigures, em Xinjiang, foi introduzida em 2004 uma política de “vigorosa promoção da educação bilingue”. Apenas dois anos depois já tinha sido implementada a educação apenas em mandarim em várias áreas rurais, logo a partir do jardim-de-infância. Uma decisão que viola claramente a constituição chinesa, que garante às minorias étnicas o direito de “usar e desenvolver” as suas línguas, nomeadamente através do ensino como língua materna.
“O objectivo deles [autoridades centrais] é o mesmo”, diz Enghebatu Togochog. “Isto não é um caso isolado. Há uma estratégia chinesa de apagar as identidades nacionais”, sublinha o activista.

O risco separatista

Essa estratégia é baseada na chamada segunda geração de políticas étnicas, uma teoria proposta em 2011 por um grupo de prestigiados académicos chineses, que defenderam uma assimilação agressiva das minorias étnicas, tendo como referência a integração dos imigrantes nos Estados Unidos.
Aliás, esta teoria foi elogiada por uma delegação do Ministério chinês da Educação numa visita à Mongólia Interior a 4 de Junho, durante a qual foi mencionada pela primeira vez esta alteração ao sistema educativo da região.
O decreto que mais tarde introduziu as mudanças cita o Presidente chinês Xi Jinping ao sublinhar a importância de promover uma língua comum para fomentar a unidade nacional e a harmonia étnica.
Na Mongólia Interior esta harmonia sobreviveu a uma sangrenta purga que matou mais de 16 mil pessoas – segundo uma estimativa oficial do governo chinês – entre 1967 e 1969, durante a Revolução Cultural.
Os primeiros sinais de revolta só apareceram em 2011, após um pastor ter sido morto pelo motorista de um camião de uma mina de carvão durante um protesto contra a ocupação de terras de pastoreio por parte de empresas mineiras.
Um processo que continua actualmente, lamenta Enghebatu Togochog. Mesmo a agência noticiosa estatal chinesa Xinhua, sublinha o activista, admitiu que tinham sido encerradas 1.900 minas ilegais na Mongólia Interior. “Imaginem quantas mais minas continuam a funcionar”, diz o refugiado político.
Centenas de milhares de imigrantes de etnia ‘han’ têm acorrido à região, “destruindo a nossa terra e expulsando os mongóis das suas terras”, acrescenta Enghebatu. “O modo de vida tradicional do povo mongol foi destruído”, lamenta o activista.
Ao impor à força alterações à educação em mongol, o Partido Comunista arrisca-se a criar, no seio de uma comunidade que até agora era considerada um grupo modelo e cujos membros se identificam como chineses, um novo foco de separatismo étnico, avisa Gegentuul Baioud.


Fotografia de destaque: bukitdamansara (SHUTTERSTOCK)

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