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política e sociedade

Sinofuturismo, uma via possível para entender a China do século XXI

August 15, 2019

Sinofuturismo, uma via possível para entender a China do século XXI

No último texto que aqui publiquei, escrevi sobre o sinofuturismo, na perspectiva do filme documental (ou vídeo-ensaio) de Lawrence Lek, “Sinofuturismo (1839–2046)”. Hoje exponho sete tópicos, que são a base para a compreensão do que vem a ser este movimento de arte política, segundo vários artistas, incluindo Lek.
No sinofuturismo, abraça-se a China em sete estereótipos chave de sua sociedade – computação científica, cópia, jogos, estudo, vícios, trabalho e apostas. A partir desses elementos é possível entender a dinâmica do país que emerge como potência mal compreendida. Os sete estereótipos sinalizam que o desenvolvimento tecnológico da China pode ser visto como uma forma de inteligência artificial. E o sinofuturismo é de fato uma forma de inteligência artificial, distribuída em massa, a partir de redes de relacionamentos, e baseada na reprodução e na cópia, em detrimento da originalidade; no vício em aprender e absorver novas tecnologias ao invés de formulações de questões filosóficas ou moralidades. Temos de ter em conta ainda o fato dos cidadãos chineses trabalharem arduamente e de serem donos de uma capacidade sem precedentes para colecionarem forças e poderes, no sentido da sua trajetória milenar histórica de feitos e legados.

COMPUTAÇÃO CIENTÍFICA
Qual o papel do pensar? A computação científica projeta esta reflexão na competição já instaurada e em curso, entre humanos e máquinas. Máquinas e humanos são configurados para operar, e disputas entre ambos, em situações para medição de capacidades e habilidades versus tempo de execução são praticados e testados há ano, como é o caso das partidas de xadrez. Atualmente avança-se com experimentos mais elaborados que envolvem a distinção das nuances não programáveis, projetando o lugar do homem e o papel do pensar nesta conjuntura pós tecnológica.

CÓPIA
Ao copiar replicam-se os mestres. O conceito da cópia instaurou-se no sentido do treinar, reverenciar, repetir e aperfeiçoar. Existe uma identificação, apreciação e, como resultado, copia-se. O sinofuturismo absorve tudo: arquiteturas, poemas, artes, produtos falsificados, réplicas (de eletrônicos, carros, bolsas, roupas…) para desta forma promover a inclusão, proporcionando o acesso em função dos preços mais baratos.
A questão da cópia conduz a China a um melodrama, identificando-se o “made in China” e o fabricante de quinquilharias de má qualidade.
A lógica do sinofuturismo opera de maneira mais pragmática, ao considerar sem sentido produzir visões do futuro quando estas já existem. A China há tempos investe para ser reconhecida em seu estágio atual do “created in China”, ou seja, produtos de fabricação com uso de tecnologia própria.
O movimento compartilha um otimismo crítico em relação à tecnologia de outros movimentos tidos como movimentos minoritários, entusiastas das tecnologias, como o futurismo italiano, o afrofuturismo e o golfo futurismo ou futurismo dos países do Oriente Médio. Os movimentos futuristas usavam a base tecnológica como forma de liberdade, de acordo com seu próprio contexto político (sendo ou não democracias).

JOGOS
Jogar é treinar. Os ensinamentos da era maoísta influenciaram gerações de atletas olímpicos, bailarinos, acrobatas. A contradição instaurada na prática de treinar o corpo numa época cibernética diz respeito à corporeidade. O corpo a ser treinado agora é o holograma, a versão virtual. A China é um dos países que mais cresce na indústria do eSports e eGames.
Os jovens chineses, as gerações de filhos únicos criados pelos avós desviam a solidão nos jogos. Fizeram das lan houses refúgio, extensão da própria existência, encontraram nas opções dos jogos virtuais liberdades para outras personalidades e realidades criadas a partir de suas vontades. Um mundo paralelo mais brando, uma realidade só no virtual.
Em 2008, a China declarou o vício à internet como uma desordem de saúde estabelecendo tratamentos clínicos que envolvem treinamento militar para a “recuperação” de adolescentes. Clínicas de reabilitação para dependentes da internet surgiram em catadupa para amenizar a fuga desta criação de futuro que sempre pode ser mudada.

ESTUDO
Falamos aqui da pressão em função da competição, da busca de espaço, de oportunidades e de emprego. E esta é uma característica presente desde os idos do mandarinato ao atual gaokao (exames de acesso ao ensino superior na China): o esforço, a memorização, o bombardeio de informação para a formação, e a assimilação de informações sem propriamente gerar questionamentos sobre o conteúdo memorizado.
Os adolescentes vivem com uma carga horária intensa semi-integral nas escolas, com as atividades extracurriculares e uma dedicação sobre-humana, assemelhando-se a máquinas depositárias de dados. O estudo é visto como uma prioridade, independente das condições emocionais geradas na formação de crianças ou adolescentes criadas sob tal rigor, sob a disciplina e a privação do convívio com os pais, já que muitos são trabalhadores migrantes e vêem os filhos duas vezes por ano.
A disciplina dada aos estudos não é necessariamente exclusiva do sinofuturismo e o mesmo se aplica aos resultados proporcionados em função do que dele é gerado, produzido, fabricado e distribuído globalmente.

FOTO: geralt (pixabay.com)

O sinofuturismo absorve tudo: arquiteturas, poemas, artes, produtos falsificados, réplicas (de eletrônicos, carros, bolsas, roupas…) para desta forma promover a inclusão, proporcionando o acesso em função dos preços mais baratos.

VÍCIO
Um povo que trabalha duro e empreende, trabalha assim a auto-estima, se organiza e se reconhece a partir desta dinâmica. O desequilíbrio gerado em crises pelo ócio ocorreu na Guerra do ópio.

TRABALHO
A ter em conta: a linha de evolução do trabalho – da agricultura, passando pela indústria à tecnologia; o desafio em relação aos postos de trabalhos humanos, que serão mantidos dada a modernização e a automação tecnológica, combatidos pela presença de projetos megalomaníacos, como a Nova Rota da Seda. Em paralelo, permanece a desconfiança e a ameaça de continuar a ser a fábrica do mundo.
Por outro lado, há que referir mudanças laborais, alterações na legislação que criaram melhorias das condições de trabalho, e também um esforço associado à mudança da imagem da figura do trabalhador chinês, delineou-se que a imagem acompanhasse os avanços atuais – passando de ninjas a heróis virtuais.

APOSTAS
A alternativa para lidar com a melancolia do passado – que passa pelos heróis marciais – ou para escapar à tragédia imposta pela realidade do trabalho ou do Estado concentra-se nas apostas. A combinação do momento certo, atrelado à sorte e à esperança da mudança do destino tedioso, é combatida pelo vício das apostas. Praticam-se as estratégias do Majong, I Ching, passando pelo xadrez chinês, baralhos ou dados.
O sinofuturismo defende a crença de um futuro próspero sonhado. Neste cenário dos jogos de realidades virtuais a inclusão é sempre possível  de acordo com o cenário de cada jogo e neste panorama é sempre possível encontrar ou conquistar reconhecimento, placar, avançar etapas e níveis e obter destaque.
O sinofuturismo não se preocupa com o futuro dramático, aqui não se trata de ganhar mas sim minimizar as chances de perder. Não é sobre o outro, é sim sobre como sobreviver.

Foto de destaque: skeeze (pixabay.com)

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